Há quase quatro anos, a empresária Sandra Lepkowski decidiu mudar hábitos para cuidar do peso. Fez uma reeducação alimentar e incluiu a musculação na rotina, cinco vezes por semana. Nos últimos meses, porém, percebeu um pequeno aumento de peso e uma alteração nos níveis de insulina. Foi quando começou a olhar com mais atenção para uma possibilidade que, até então, conhecia principalmente pelo relato de terceiros.

“Eu vim saber um pouquinho mais sobre as canetas. Estou com vontade, porque agora não tem mais o que aumentar a musculação. Acho que preciso de ajuda”, conta.

Sandra foi uma das participantes de uma palestra promovida pelo Centro Médico Adventista de Porto Alegre na quarta-feira, 16, sobre o uso das canetas emagrecedoras no tratamento da obesidade. Conduzido pela endocrinologista Jocely Costa, o encontro abriu espaço para perguntas, relatos de experiências e esclarecimentos sobre diferentes vias de tratamento.

Embora os holofotes estivessem voltados às medicações, a conversa começou pela base do problema. A médica destacou que a obesidade é uma doença crônica e multifatorial, descartando o estigma de que o ganho de peso seja mera "falta de força de vontade". Fatores genéticos, metabólicos, ambientais e comportamentais desempenham papéis cruciais e exigem atenção integrada.

O evento detalhou ainda os mecanismos de fome e saciedade, além da influência do estado emocional e do sistema de recompensa cerebral, evidenciando que o cuidado sustentável exige atuação multidisciplinar.

Quando a medicação é indicada

As novas terapias injetáveis ampliaram as fronteiras do tratamento, mas a prescrição não é universal. Após a palestra, Jocely explicou que a indicação foca prioritariamente em pacientes com obesidade (Índice de Massa Corporal acima de 30) ou naqueles com sobrepeso (IMC a partir de 27) associado a comorbidades, como hipertensão, glicose elevada ou alta circunferência abdominal.

O IMC e o histórico clínico ajudam a traçar o perfil do paciente apto a receber a medicação. "Embora tenha ficado muito famoso nas redes sociais, é um medicamento voltado ao tratamento de uma doença crônica, e seu uso deve ser estritamente acompanhado por um médico", ressaltou a endocrinologista.

Durante o bate-papo, a especialista apresentou diferentes dispositivos, esclareceu dúvidas sobre dosagens e reforçou que os efeitos mais modernos vão muito além da balança, agindo diretamente nos receptores de saciedade e na regulação metabólica.

Tratamento vai além da medicação

Apesar do entusiasmo com a farmacologia, a mensagem central do evento foi clara: não há substituto para a base do cuidado à saúde. "A medicação não vai mudar o nosso estilo de vida. É importante que a pessoa busque orientação nutricional, mantenha uma alimentação saudável e faça atividade física. O acompanhamento psicológico também é frequentemente necessário, pois os mecanismos ligados à própria doença acabam afetando o emocional", pontuou Jocely.

Essa abordagem conectou-se diretamente à filosofia adventista de saúde. A médica traçou um paralelo entre o tratamento da obesidade e os oito remédios naturais promovidos pela denominação: água, respiração, confiança em Deus, sono, equilíbrio, exercício físico, luz solar e alimentação saudável. O objetivo não é colocar hábitos e remédios em lados opostos, mas integrá-los estrategicamente a cada quadro clínico.

A especialista alertou ainda para o perigo das perdas de peso muito bruscas aliadas a dietas excessivamente restritivas, que podem gerar perda de massa magra e desnutrição.

Informação antes da decisão

Com o objetivo de aproximar a comunidade e o corpo clínico, o evento integra as ações que o Centro Médico realiza para a conscientização e prevenção de doenças. Segundo o capelão da instituição, pastor Matheus Moreira, a estratégia também busca oferecer informações seguras diante da quantidade de conteúdos disponíveis na internet. “A intenção do Centro Médico é trazer informação científica, informação certa, porque a gente vê muitas coisas na internet. A ideia é trazer informação de qualidade, aliando ao que a gente já conhece, aos oito remédios naturais e a uma mudança de estilo de vida”, explica.

Para Sandra, o evento cumpriu o papel de quebrar barreiras. "Eu tinha preconceito. Várias amigas que tomam diziam para eu usar também, dizendo que era fácil comprar. E eu dizia: 'Não, quero através de um médico, com uma receita, que me explique e que eu entenda'. Não gosto de usar qualquer coisa assim", relata a empresária. A bagagem de informações deu a ela a segurança que faltava. O próximo passo, garantido pela conscientização, será na cadeira do consultório. "Sem esse esclarecimento eu não teria coragem. Agora acho que estou pronta, mas, claro, vou marcar consulta e ver com a médica o que ela recomenda".

O desfecho de Sandra traduz o consenso da noite: enquanto a ciência amplia o arsenal contra a obesidade, o sucesso de qualquer tratamento continua dependendo de escolhas individualizadas e de um olhar sistêmico para a saúde.

FONTE/CRÉDITOS: Willian Vieira